A Escola Maria Teixeira, no Jardim Ingá, educa crianças e adultos especiais com uma proposta inovadora e revolucionária: a metodologia educacional da ética do amor, fazendo jus à frase: “a melhor maneira de ensinar uma criança a amar é amando-a”
Uma convicção muito difundida nas escolas que têm uma proposta pedagógica de vanguarda em relação aos colégios tradicionais (até mesmo os de elite) é que uma criança amada é um ser completamente diferenciado em relação aos demais. Ela tem um preparo muito maior para a vida, ao contrário dos jovens educados apenas para compor o mercado de trabalho e alimentar o sistema. (Detalhe: “criança amada” não quer dizer “criança mimada”, muito pelo contrário).
A diferença é abissal: de um lado, um modelo educacional majoritário que apenas prepara as pessoas para que sejam bons profissionais, mas não exatamente pessoas conscientes para o convívio social e nem prontas para dar sua parcela de contribuição para a transformação da sociedade. Do outro lado, pessoas que têm o firme propósito de deixar sua marca de mudança social.
Parafraseando o educador argentino Pablo Lipnizky, todo mundo fala de paz, mas poucos educam para a paz. A maioria educa apenas para a competição (profissional, social etc.), que é o princípio originador das guerras. Foi por isso que o Dalai Lama afirmou: “A importância da educação já foi compreendida, mas cérebros brilhantes também podem produzir grandes sofrimentos. É preciso educar os corações”.
Inserida numa realidade social desafiadora, de baixíssima renda e estatísticas preocupantes, com reduzido índice de desenvolvimento humano, em plena zona rural do Jardim Ingá, em Luziânia (GO), está um estabelecimento educacional que faz justiça à citação do lama tibetano: a Escola Maria Teixeira (EMT), que educa pessoas especiais com base no princípio didático original da ética do amor.
Estruturada em formato de vila, como um vilarejo acolhedor, a EMT não tem fins lucrativos e oferece educação infantil e ensino fundamental, atendendo gratuitamente 270 alunos, entre crianças e adolescentes de baixa renda no ensino comum e especial. Atende ainda alunos com síndrome de Down, autismo, deficiências cognitivas, motoras, visuais e auditivas, entre outras, além de alfabetizar adultos, atuando nas três pontas: os filhos, os pais e os avós, pois a instituição entende que a educação é uma construção social que deve abarcar toda a família. Também são atendidos bebês especiais na estimulação precoce.
Uma escola para todos
“A EMT é uma escola de pensamento, que acredita que é possível educar as pessoas para a vida. A escola é uma prova disso. Além das matérias comuns da grade curricular tradicional, temos outras três disciplinas obrigatórias: ‘Ética do Amor’, ‘Respeito à Natureza’ e ‘Libras’, que é a segunda língua da comunidade”, explica a professora Silvana Vasconcelos, diretora-fundadora voluntária da entidade. As disciplinas mencionadas evidenciam a marca registrada da escola: a inclusão pelo amor. “A entidade nasceu para ser uma escola para todos”, completa a professora.
A escola é um verdadeiro oásis para as famílias que vagavam no deserto de não saber o que fazer com seus filhos especiais, recusados pelos colégios tradicionais. Como se não bastasse conviverem com as dificuldades inerentes às suas deficiências, muitos desses alunos ainda vêm de lares complicados (com violência doméstica, abuso sexual, desestrutura familiar, rejeição etc.), motivo pelo qual a escola procura apagar marcas difíceis da memória, com uma pedagogia baseada na compreensão, no respeito e na aceitação amorosa das diferenças. Hoje, a EMT atende a segunda geração de alunos, filhos de ex-alunos.
Por causa do modelo da escola, que inclui a defesa do cerrado e o respeito à natureza em seu currículo, em 1994 a EMT entrou com um pedido na justiça para que a área em torno da vila fosse considerada a 1ª Unidade de Conservação do Entorno. Não por acaso, todas as salas de aula da escola têm nomes que remetem à natureza. A EMT tenta também salvar o rio Palmital, que passa nos fundos da vila e foi poluído por uma empresa de detergentes. Por causa disso, a empresa foi acionada judicialmente e, como contrapartida pelos danos ambientais, acabou ajudando também a escola.
À mestre com carinho: multiplicando as lições de amor
“Tenho minha vida marcada pelo diferencial pedagógico da escola. A EMT é um mundo que vive o resultado inovador que a conexão pelo amor traz”, afirmou Jessé Cantanhêde, ex-aluno da vila e formado em Pedagogia. Jessé chegou à escola em 2003, aos 13 anos, juntamente com os outros oito irmãos e os pais, que também foram abraçados pela entidade.
Ele afirma que, quando se tornou adulto e saiu da escola, teve um choque de realidade na comunidade do Jardim Ingá e no mundo afora. “Antes e depois da escola, eu e meus irmãos passamos por todo o tipo de assédio da sociedade. Foi a base que recebi da escola que me fortaleceu e me fez mais preparado para a vida”. Jessé reafirma que foi a proposta inovadora da escola de respeitar as diferenças de cada aluno – e de amá-los como eles são – que tornou sua conscientização social possível.
Graças a tudo o que viveu e aprendeu na EMT, Jessé decidiu que – depois de formado – irá voltar à escola, mas agora como professor, para replicar o modelo pedagógico e multiplicar o amor recebido. “Na sociedade, nós somos muitas vezes excluídos por querermos e escolhermos o caminho certo. Aqui, aprendi que o amor é a base de tudo. Se a base está bem assentada com os fundamentos do amor, podemos erguer qualquer edifício em cima. Com o indivíduo também é assim. Se a criança tem essa base, tudo é possível ao adulto que ela irá se tornar”, raciocinou Jessé.
Em busca da sustentabilidade do projeto social
A vila tem funcionários contratados e emprega mão de obra para dois estabelecimentos industriais da entidade: uma fábrica de doce de leite e outra de pão de queijo, que produz uma tonelada por dia, constituindo uma linha de produção para comercialização por outra empresa. A professora Silvana explica que, entre 2014 e 2015, a EMT viveu uma de suas piores crises, só superada pela crise sanitária de Covid-19, quando quase encerrou suas atividades. Foi quando ela pediu em orações uma solução para as dívidas financeiras da instituição.
Certo dia, a professora estava em um laboratório, quando viu um pacote de pão de queijo, que a clínica fornece aos clientes, e teve uma revelação. Viu no pacote o mesmo símbolo da escola (o desenho amarelo de uma casinha sorrindo). Achou que aquilo era um sinal e que eles deveriam fabricar pão de queijo, que seria a forma de tirar a escola da situação difícil. Surgiu, assim, a fábrica. Foi só um dos muitos auxílios inusitados que a escola recebeu em 25 anos de atividades. Apesar disso, a escola ainda não é sustentável e carece muito de doações. “Existe uma lista imensa de espera de novas crianças, que ainda não temos condições de atender”, explica a professora Silvana.
Temos a certeza de que, assim como o amor pode brotar do ofício de lecionar aos mais vulneráveis, a Escola Maria Teixeira ainda terá muito a ensinar ao sistema educacional, mostrando como a pedagogia tradicional está longe de edificar um ser humano preparado para tornar o planeta um lugar melhor para se viver.

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