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Milei é eleito presidente da Argentina

Exausta de uma crise econômica sem precedentes, a maioria dos argentinos optou pelo candidato que usa o discurso da extrema direita para atacar o sistema político que o elegeu. Dentre suas promessas de campanha está a redução dos gastos públicos ao mínimo possível, a dolarização da economia em frangalhos e o fechamento do Banco Central

A apuração das urnas neste domingo (19/11) sentenciou o fim da mais acirrada eleição das últimas décadas na Argentina, decretando o economista – autodenominado “libertário” e “anarcocapitalista” – Javier Milei como o próximo presidente do país, após vencer o candidato peronista Sergio Massa, que é o ministro da economia de Alberto Fernández.

Sergio Massa havia vencido o primeiro turno das eleições em outubro, mas perdeu força para a campanha de rolo compressor de Javier Milei no segundo turno. A atividade política de Milei é recente e sua ascensão vertiginosa até o ápice da Casa Rosada mostra a força que ele imprimiu à carreira desde o início, quando – depois de se tornar uma figura pública conhecida como comentarista econômico na TV – foi eleito deputado federal em 2021, à frente do partido “A Liberdade Avança”.

Já neste ano, Milei assombrou caciques veteranos com uma inusitada liderança nas primárias realizadas em agosto, quando assumiu o primeiro lugar com grande vantagem. Embora ele tenha sido ultrapassado por Massa no primeiro turno, Milei virou o jogo com uma margem mais ampla do que havia sido previsto pela maior parte das pesquisas de opinião até então.

Milei: vitória no segundo turno surpreendeu até analistas experientes (foto: Juan Ignácio Roncoroni/EPA-EFE)

Cenário de “terra arrasada”

O desafio de Milei na Casa Rosada será invulgar. A Argentina vivencia uma das maiores crises de sua história, com uma economia na UTI, que sobrevive por “aparelhos”: uma inflação interanual que supera a marca alcançada dos 142% em outubro e assombrosos patamares de pobreza, que abarcam mais de 40% da população, sendo que, se forem consideradas as crianças menores de 14 anos, o percentual aumenta para inacreditáveis 56%.

O que agrava a crise social sem precedentes e o cenário de “terra arrasada” é o desabastecimento dos cofres do Banco Central, juntamente com o aumento exorbitante da dívida pública. Não por acaso, a Argentina é considerada hoje um dos principais devedores do Fundo Monetário Internacional (FMI): em 2018, na gestão de Mauricio Macri (2015-2019), o governo contraiu um empréstimo de US$ 44 bilhões, que – em valores atualizados – alcança os R$ 213 bilhões.

Milei: discursos contundentes e ataque ao sistema político argentino (foto: reprodução/Twitter/X)

Algumas soluções propostas pelo presidente eleito são pouco ortodoxas, mas vêm no sentido daquele ditado popular que sustenta que uma enfermidade contumaz exige a prescrição de um remédio amargo. Fazendo jus ao que ele prometia ainda em campanha, Milei pretende cortar “na própria carne” os gastos públicos, reduzindo-os ao mínimo indispensável para o funcionamento do Estado. Além disso, pretende dolarizar a economia, privatizar empresas estatais públicas e “dinamitar” [sic] o Banco Central.

Outras propostas, igualmente controversas, dizem respeito à venda de órgãos e à flexibilização do porte de armas na Argentina, assim como fez o governo Bolsonaro, que – desde que chegou ao poder, em 2019 – promulgou mais de 40 decretos neste sentido.

Conexão com o eleitorado mais jovem

Aliás, não são poucos os analistas políticos que sustentam que foi justamente a virulência dos discursos de Milei, assim como muitas de suas opiniões controversas expressas para os meios de comunicação, que lhe possibilitou estabelecer uma sintonia com os eleitores mais jovens, muitos dos quais totalmente insatisfeitos com a condução política, econômica e social na Argentina.

“Ele [Milei] conseguiu capturar o tédio dos que estão no topo, dos que estão na base, dos que estão no meio, das crianças, dos adultos, o cansaço de todos”, sintetizou Juan Carlos de Pablo, economista da Universidade de San Andrés e amigo de Milei há mais de três décadas, segundo declarou à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.

Um eleitorado mais jovem, cansado de desgovernos e de sucessivas crises, definiu as eleições na Argentina (foto: Getty Images)

Dentre seus discursos virulentos e sem “meias palavras”, Milei declarou que o governo atual de Alberto Fernández é parte de uma “casta política parasitária”. “Conseguimos construir esta alternativa competitiva, que não só acabará com o kirchnerismo, mas também acabará com a casta política parasitária estúpida e inútil que existe neste país”, declarou ele, certa vez. Em outra ocasião, Milei afirmou que a moeda do país é hoje algo que ele definiu como um “excremento”.

Em declarações semelhantes, ele também não poupou a cultura, a educação, a saúde pública e nem mesmo o Papa Francisco, a quem acusou de ser um apoiador do comunismo. Em outra feita, Milei relativizou a grave violência impetrada pela ditadura militar argentina, que, segundo estimativas, vitimou mais de 30 mil pessoas, sem deixar de mencionar as mulheres abusadas e estupradas, as crianças sequestradas e os desaparecidos políticos.

Militância jovem comemora a vitória de Milei (foto: Natacha Pisarenko/AP)

Porém, para outro perfil de eleitores, aqueles que se alinham à postura supostamente mais prudente de Massa, Milei lhes parece demasiado incendiário e beligerante, o que o tornaria naturalmente mais perigoso, razão pela qual sua postura política lhes inflige medo e, consequentemente, rejeição. Talvez por isso, durante sua campanha no segundo turno, Milei resolveu amenizar a contundência de suas posições mais radicais.

Resta saber se discurso e atuação prática se coadunam a uma condução política sensata para a resolução dos muitos problemas que Milei terá de enfrentar para que a Argentina possa, enfim, sobreviver à grave crise que se abateu sobre o seu povo.

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