África do Sul reitera nova denúncia contra Israel após negativa do Tribunal de Haia em relação à denúncia anterior
Em uma segunda tentativa, o governo da África do Sul fez ontem (06/03) uma nova denúncia contra Israel à Corte Internacional de Justiça (CIJ), com a acusação de que a ofensiva do governo de Benjamin Netanyahu na Faixa de Gaza tem acarretado “fome generalizada” aos palestinos.
Sediada em Haia, nos Países Baixos, a CIJ já havia negado a denúncia anterior de Pretória, feita em janeiro deste ano, que acusava o país hebreu de realizar “contínuas violações do direito internacional, como crimes contra a humanidade e crimes de guerra”, que chegavam ao “limiar do genocídio” do povo palestino. Na ocasião da primeira denúncia, em vez de ordenar que Netanyahu interrompesse a campanha militar no enclave, a Corte se limitou a emitir um comunicado a Israel de que Tel Aviv deveria garantir que estava evitando atos de genocídio.
Na mais recente acusação contra Israel, o presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, solicitou à CIJ a imposição de novas medidas de emergência contra Israel, acrescentando que a recente solicitação poderia ser “a última oportunidade que esse Tribunal terá para salvar o povo palestino em Gaza, que já está morrendo de inanição e que, agora, está ‘a um passo’ da fome”.

Uma mulher palestina chora, ao inspecionar seu apartamento, severamente danificado após o bombardeio israelense em Rafah, no sul da Faixa de Gaza (foto: Said Khatib/AFP/08/02/2024)
Crise humanitária sem precedentes na região
A atual requisição da África do Sul à Corte Internacional de Justiça faz uma clara referência ao alerta do Escritório da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários (Ocha), que estima que 2,2 milhões dos 2,4 milhões de habitantes de Gaza estejam à beira da fome, sobretudo no norte do enclave, onde as forças israelenses estabeleceram bloqueios para a entrada de auxílio, sob a alegação de que a passagem poderia ser utilizada pelos militantes do Hamas para o envio de armas em meio aos suprimentos.
Em meio a tanta dor, ainda está sob a investigação de organizações independentes a morte de mais de 100 palestinos durante a entrega de ajuda humanitária na Cidade de Gaza na semana passada. Testemunhos dão conta de que militares hebreus alvejaram indiscriminadamente a multidão, um caso que é negado terminantemente por Tel Aviv.
Ainda em janeiro, a CIJ havia recomendado que Israel permitisse a entrada de ajuda humanitária em território palestino. Menos de um mês após, a Corte rejeitou a primeira reivindicação da África do Sul, que buscava pressionar legalmente Israel para não lançar uma ofensiva terrestre contra Rafah, no sul da Faixa de Gaza.

O ministro da Justiça e Serviços Correcionais da África do Sul, Ronald Lamola (ao centro), e o ministro assistente de Assuntos Multilaterais Palestinos, Ammar Hijazi (à direita), discursam para a imprensa do lado de fora da Corte Internacional de Justiça, em Haia (foto: Patrick Post/AP/11/01/24)
A Casa Branca muda o discurso em relação a Israel
Até Washington hoje acredita que a ofensiva de Netanyahu contra o Hamas está cobrando um preço caro e sem volta à inocente população palestina, sobretudo às mulheres, às crianças e aos idosos. Segundo o Ministério da Saúde de Gaza, desde que se iniciou a incursão hebraica no enclave palestino, pelo menos 30,7 mil civis já perderam a vida. Discurso este que é reproduzido até pelo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden.
“Mais de 30 mil palestinos morreram. A maioria não é do Hamas. Milhares e milhares são mulheres e crianças. Meninos e meninas ficaram órfãos. Mais de 2 milhões de palestinos estão sob bombardeios e deslocados. Casas foram destruídas. Bairros e cidades ficaram em ruínas. Famílias estão sem água, sem comida e sem remédio”, afirmou o próprio Joe Biden agora à noite (07/03), durante o discurso do Estado da União, o mais importante enunciado anual de um estadista norte-americano.
O discurso claramente evidencia uma mudança de tom de Biden em relação ao conflito no Oriente Médio, uma vez que passou do apoio incondicional a Netanyahu à postura de condenar publicamente o desastroso rumo da incursão israelense em solo palestino.
Contudo, analistas políticos têm afirmado que a alteração no timbre de Biden em relação à guerra se deve à sua perda de popularidade, sobretudo em meio ao eleitorado jovem, que tem sido veemente contra o apoio americano a Israel, pela retaliação desproporcional não ao Hamas – que, desde seu ataque em 7 de outubro de 2023, matou cerca de 1.200 civis israelenses, sequestrou aproximadamente 240 pessoas (dentre elas, bebês e idosos) e atacou sexualmente um número incalculável de mulheres –, mas ao povo palestino inocente, pego no meio do fogo cruzado e dos bombardeios indiscriminados dos militares hebreus.
Apesar de seu discurso enviesado, Biden asseverou que Israel tem todo o direito de se defender, condenou terminantemente os terroristas do Hamas e não chegou a falar em armistício e nem mesmo, sequer, mencionou qualquer suspensão da ajuda militar multibilionária dos Estados Unidos ao governo de Netanyahu.
O que é novo no enunciado do titular da Casa Branca, contudo, é a menção a um plano ainda indefinido para a construção de um píer em Gaza, para a chegada de ajuda humanitária para os palestinos. Além disso, suas palavras não vêm de “autoridades palestinas ligadas ao Hamas”, como asseverava Tel Aviv em relação a outros discursos, mas do próprio presidente de uma nação que é a maior aliada de Israel: uma parceira longeva, fiel e contumaz.
| Com informações do Correio Braziliense e da coluna de Guga Chacra em “O Globo”. Disponível em: <https://bit.ly/3PdN2y8> e <https://bit.ly/3v4jdZU>. |

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