O papa dos pobres deixa um legado de reformas viscerais na Igreja Católica, de uma notável preocupação pelo social e de crítica acerba ao capitalismo. O pontífice convalescia de uma crise pulmonar aguda
Por Paulo Castro
É praticamente impossível definir em poucas palavras o que representou para o mundo e entre nós a presença marcante de Jorge Bergoglio, o papa Francisco, que se despediu dos fiéis na madrugada desta segunda-feira (21/04), aos 88 anos de idade, logo após o domingo de Páscoa.
Ontem (20/04), ele chegou a abençoar os fiéis na Praça São Pedro, cumprindo a programação da Páscoa, ainda que sem a devida homilia, uma data que, principalmente para ele, sempre representou mais do que uma simples função protocolar. Pode-se imaginar seu esforço ingente de encontrar os fiéis, mesmo com a saúde a ponto de colapsar. Esperaria ele justamente o encerramento da Semana Santa para dar por concluída sua missão no mundo? Jamais saberemos.
O comunicado foi feito pelo Vaticano nesta manhã (21/04), às 7h35, no horário de Roma. Segundo o porta-voz da Santa Sé, o Cardeal Kevin Farrell, o pontífice havia retornado “à casa do Pai”, dizia o anúncio, feito por meio do seu perfil no Telegram.

Foto: Vatican Media
Francisco se recuperava de uma pneumonia, que, se contraída por jovens, pode ser fatal; imagine por um octogenário, quase beirando os 90 anos. Por 38 dias, só em 2025, o papa já havia ficado internado pela mesma razão e havia recebido alta em 23 de março. Por conta disso, suas atividades públicas estavam restritas ao mínimo indispensável.
“O bispo de Roma, Francisco, retornou à Casa do Pai. Toda a sua vida foi dedicada ao serviço do Senhor e de Sua Igreja. Ele nos ensinou a viver os valores do Evangelho com fidelidade, coragem e amor universal, especialmente em favor dos mais pobres e marginalizados. Com imensa gratidão por seu exemplo como verdadeiro discípulo do Senhor Jesus, recomendamos a alma do papa Francisco ao infinito amor misericordioso do Deus Trino”, afirmava o comunicado oficial do Vaticano sobre o falecimento do pontífice.

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Orgulho do povo argentino
Nascido em 17 de dezembro de 1936, em Buenos Aires, na Argentina, Jorge Mario Bergoglio era filho de imigrantes italianos, cuja infância foi modesta, restrita ao essencial. Já adulto, graduou-se como técnico em química, antes de ingressar no seminário. Em 1958, entrou para a Companhia de Jesus e foi ordenado sacerdote em 1969.
Bergoglio foi ordenado como arcebispo de Buenos Aires em 1998, quando optou por manter o modo de vida simples que sempre o caracterizou. Evitava os luxos e sempre utilizava transporte público para se locomover pela cidade. Foi a partir dessa época que se notabilizou por seu trabalho pastoral dedicado aos bolsões de pobreza e às comunidades desassistidas.
Em 2001, foi nomeado cardeal pelo então papa João Paulo II. Durante o Conclave de 2005, que elegeu Bento XVI, relatos indicam que Bergoglio havia sido um dos cardeais mais votados nas primeiras rodadas. Após a renúncia do papa Bento XVI, Bergoglio foi eleito o 266º papa da Igreja Católica em 13 de março de 2013, quando se tornou o primeiro pontífice jesuíta, o primeiro das Américas e o primeiro a escolher o nome Francisco, em uma clara deferência ao Santo dos Pobres, São Francisco de Assis.
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Tolerância ao homossexualismo e luta contra o aborto
Durante os 12 anos do seu pontificado, Francisco fez declarações polêmicas, que acirraram os ânimos em âmbito mundial. A respeito da comunidade LGBTQIA+, o papa disse em 2013: “Se uma pessoa é gay e busca a Deus, quem sou eu para julgar?”. Reafirmando sua postura anterior, 10 anos depois, ele diria que “ser homossexual não é crime”. Todavia, ele reiterou a posição da Igreja de ser contrária ao homossexualismo, mas não aos indivíduos que se definissem pela referida opção sexual.
Já no tocante ao aborto, Francisco reforçou a perspectiva da Santa Sé, ao compará-lo à eugenia e às condenáveis práticas históricas de eliminação de vidas indesejáveis: “É justo eliminar uma vida humana para resolver um problema?”, indagou ele em 2018. Em outro momento, o pontífice pontuou que “o aborto nunca pode ser apresentado como um direito humano”.

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O papa reformador e crítico ao capitalismo
Desde o começo do seu pontificado, Francisco estabeleceu diversas reformas na Santa Sé, a exemplo de mudanças na administração financeira do Vaticano e medidas severas contra os abusos sexuais dentro da Igreja. De igual modo, procurou aproximar os fiéis das questões sociais, defendendo os direitos das populações empobrecidas, criticando as desigualdades econômicas e fomentando a tolerância inter-religiosa.
Francisco foi especialmente conhecido por sua cruzada contra as desigualdades sociais. Suas encíclicas, como a Fratelli Tutti, em 2020, reforçaram sua crítica ao “capitalismo desenfreado” e defenderam um modelo econômico solidário e inclusivo. Embora o papa tenha negado qualquer alinhamento ideológico específico, sua postura gerou críticas de setores conservadores da Igreja, que o acusaram de se aproximar excessivamente de agendas políticas da esquerda global.
Por exemplo, no discurso ao Congresso Eclesial de Florença, citando a sua encíclica Evangelii Gaudium, o pontífice afirmou: “Somos chamados a descobrir Cristo nos pobres, a emprestar a eles a nossa voz nas suas causas, mas também a viver próximo deles, a escutá-los, a compreendê-los e a acolher a misteriosa experiência que Deus quer comunicar-nos por intermédio deles”.

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Já na encíclica Laudato Si, Francisco declarou que “é insustentável o comportamento daqueles que consomem e destroem cada vez mais, enquanto outros ainda não podem viver de acordo com a sua dignidade humana”. Para isso, o papa repetiu e reafirmou o que já havia sido registrado pelo concílio Vaticano II (1961-1965), na encíclica Gaudium et Spes, quando afirmou que a Igreja não deveria colocar “a sua esperança nos privilégios que lhe oferece a autoridade civil. Mais ainda, ela renunciará ao exercício de alguns direitos legitimamente adquiridos, quando verificar que o seu uso põe em causa a sinceridade do seu testemunho”.
Ainda na Evangelii Gaudium, Francisco destacou a exigência ética de construir uma economia a serviço dos povos, de modo a veementemente negar “uma economia da exclusão”, “a nova idolatria do dinheiro”, “um dinheiro que governa em lugar de servir”, “a iniquidade que gera violência”. Ainda na mesma encíclica, Francisco declarou: “não pode ser que não seja notícia que um idoso morador de rua morra de frio, mas que uma queda de dois pontos no mercado de ações o seja. Isso é exclusão. Não se pode tolerar que se jogue comida no lixo quando há pessoas que morrem de fome. Isso é iniquidade”.

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