Ex-presidente e senador é preso como desdobramento da Operação Lava-Jato. Dezenas de outros envolvidos no esquema tiveram seus processos anulados pelo STF e continuam livres, em clara evidência empírica do conhecido ditado popular: “para os amigos, tudo; para os inimigos, o rigor da lei”
Por Paulo Castro
Na manhã desta sexta-feira (25/04), o ex-presidente e atual senador por Alagoas, Fernando Collor de Mello, foi preso por ordem do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), após o término dos recursos a que o senador teria direito no processo, em que foi condenado, em 2023, a 8 anos e 10 meses de prisão, por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, como parte do desdobramento da Operação Lava-Jato, da Polícia Federal (PF).
O relator do processo, ministro Edson Fachin, levou em conta os crimes cometidos por Collor durante sua atuação como senador, por receber cerca de R$ 20 milhões em propinas entre 2010 e 2014. A maioria das provas foi obtida por delações premiadas, como a do doleiro Alberto Youssef, além de documentos, extratos bancários e e-mails.
A pergunta que não quer calar é: se Collor está preso, por que Lula (que era o cérebro do esquema) e seus cupinchas estão soltos? É claro que Collor é culpado. Devemos lembrar que o ex-presidente ficou tristemente notabilizado por implementar, em 1990, um dia após sua posse como presidente da República, um plano econômico que, não por acaso, levou o seu nome e realizou o congelamento, por 18 meses, de 80% de todos os depósitos da então operação financeira conhecida como overnight, das contas-correntes e das cadernetas de poupança que excedessem a 50 mil cruzados novos. Merecidamente, a medida foi chamada de “confisco da poupança”, uma vez que inviabilizou as finanças populares dos brasileiros.

Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil
Contudo, o que é feito dos outros condenados da Operação Lava-Jato? Afinal, o STF anulou ou não a operação? Se Lula era o chefe do esquema e teve seu processo arquivado (ele não foi inocentado), o que levou à liberdade de todos os outros integrantes da cúpula criminosa, por que apenas Collor foi condenado? O caso escancara um claro exemplo de democracia relativa e justiça seletiva. Ou seja, uma operação anticorrupção só é levada a efeito quando a cúpula do poder estatal atual acha conveniente. O que selou o destino de Collor foi o fato de ser um apoiador de Bolsonaro, o que o colocou na lista de autoridades para quem a lei vale e que precisam ser perseguidas politicamente.
Recado para o Legislativo e para as eleições de 2026
Não é desarrazoado pensar que, depois de tamanha justiça seletiva, de cujo desdobramento só o Collor foi condenado, tudo não passa de um evidente recado para o Poder Legislativo federal e para quem é amigo do ex-presidente Bolsonaro, já com foco nas eleições no ano que vem. O que comprova essa linha de raciocínio é que foram usadas provas de uma operação que foi arquivada pelo STF para justamente indiciar só uma pessoa do esquema, de modo a fazer pensar que tudo não passa de uma estratégia para legitimar a futura prisão de outrem. Collor merece ser preso, mas ele não vai ser preso pelo que merece, mas sim porque não manteve as amizades e alianças com as pessoas “corretas”.

Foto: Joedson Alves/Agência Brasil
O senador está sendo utilizado para pressionar o Congresso Nacional, com clara mensagem ao Legislativo Federal. Como bem assinalou um comentarista de política da assessoria de comunicação do Palácio do Planalto, a GloboNews, “azar do Collor que ele não é a ex-primeira dama do Peru [Nadine Heredia, igualmente condenada em seu país por ligações promíscuas com a Odebrecht], porque, se fosse, estaria andando de jato da FAB [Força Aérea Brasileira] e solto no Brasil, porque é a mesma investigação”.
O caso mostra que, atualmente, no Brasil, a Operação Lava-Jato, que foi uma legítima aplicação da lei, serve agora apenas para prender adversários políticos do PT. Além disso, é uma clara aplicação prática do conhecido ditado popular: “para os amigos, tudo; para os inimigos, o rigor da lei”.

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