Série da Netflix resgata clássica história em quadrinhos, que se notabilizou como uma crítica e uma resistência às ditaduras argentinas, cujos autores seriam perseguidos, em caso que contou com repercussões trágicas para Oesterheld e sua família
Um caso raro na sétima arte latino-americana tem deixado eufóricos tanto os aficionados por quadrinhos independentes quanto os cinéfilos de plantão. A novidade não é para menos. Estreou em abril, na plataforma da Netflix, a minissérie argentina (em seis capítulos) “O Eternauta”.
Dirigida por Bruno Stagnaro e corroteirizada por Ariel Staltari (que também interpreta o personagem de Omar na produção), a minissérie é a primeira adaptação audiovisual em live action da icônica da graphic novel homônima de Héctor Germán Oesterheld (1919-1977) e Francisco Solano López (1928-2011), que foi originalmente publicada pela primeira vez na revista Hora Cero Semanal, entre 1957 e 1959.

A grata surpresa espanta não só em números, mas também em ambição. Em apenas uma semana, a produção dos nossos vizinhos hermanos alcançou o patamar de ficar entre os 10 programas mais assistidos da plataforma de streaming em 87 países, cuja façanha não conta com precedentes, em se tratando de produções não somente latino-americanas, mas sobretudo sul-americanas. Além disso, explorando os temas de resistência e sacrifício em um cenário apocalíptico, a minissérie também surpreende pela grandiosidade da produção e pelo apuro visual, sem deixar de mencionar a interpretação sempre destacada do maior ator portenho de sua geração e, provavelmente, de todos os tempos: Ricardo Darín.
No enredo, uma tempestade de neve tóxica mata milhões de pessoas em Buenos Aires, mas algumas sobrevivem. Após a catástrofe, Juan Salvo (interpretado por Ricardo Darín) e um grupo de sobreviventes descobrem que o fenômeno atmosférico, que afeta não apenas a Argentina, mas também o Uruguai e o Brasil, até onde eles podem mensurar, é decorrente de uma ameaça alienígena. Em meio à luta pela sobrevivência, Juan Salvo e sua esposa (vivida por Carla Peterson) buscam o paradeiro da filha desaparecida.
Na história em quadrinhos original, toda a ação se passa nos anos de 1950. A opção dos roteiristas por situar a ação da minissérie nos tempos atuais é também uma crítica pouco disfarçada ao presidente Milei e à política argentina recente, como também ao momento geopolítico mundial vivido hoje, que, para eles, em muitos aspectos, se assemelha ao cenário ditatorial de 1955, que Héctor G. Oesterheld e Francisco Solano López buscaram representar e opor resistência em sua história em quadrinhos homônima.
Naquele ano (1955), teve início, em Córdoba, uma rebelião militar, que ficou conhecida como Revolução Libertadora e resultou na renúncia do então presidente Juan Domingo Perón, que precisou se exilar na Espanha.
Bastidores da produção
No total, foram necessários dois anos para o desenvolvimento e a redação dos roteiros da minissérie, quase cinco meses de pré-produção, além de um ano e meio de pós-produção. As filmagens em Buenos Aires levaram 148 dias e contaram com os trabalhos de 2.900 atores, entre os do elenco e os figurantes. Além dos 30 cenários criados virtualmente, foram mais de 50 locações e 500 máscaras para os personagens da série.

A produção é da K&S Films, responsável por produções de sucesso internacional, com títulos como “Relatos Selvagens”, de Damián Szifrón, que foi indicado ao Oscar e vencedor do BAFTA de Melhor Filme Estrangeiro; e “O Clã”, de Pablo Trapero, vencedor do Leão de Prata de Melhor Diretor no Festival de Veneza. A produtora é conhecida também por produções como “Crônica de Uma Fuga”, de Adrián Caetano, “A Cordilheira”, de Santiago Mitre, e “El Pepe, Uma Vida Suprema”, de Emir Kusturica.
Entre os “desaparecidos” políticos
Conhecido como um dos maiores roteiristas argentinos de todos os tempos e um militante ferrenho em prol da democracia, Héctor G. Oesterheld pagaria um preço muito caro por suas convicções políticas, juntamente com seus familiares. Após o golpe de Estado que instituiu nova ditadura na Argentina em 1976 (muito mais sangrenta e cruel que a anterior), Oesterheld, suas filhas e seus respectivos genros optaram pela clandestinidade, depois de se juntarem ao grupo resistente dos Montoneros, que fizera a infeliz opção pela luta armada. O resultado foi brutal. Todos foram perseguidos, capturados, torturados e certamente mortos. A versão oficial é a de que eles constam como “desaparecidos políticos” (sua filha Beatriz seria a única que teria seu corpo recuperado).

O legado de Oesterheld perpassa as gerações: é tido como um dos artistas de trajetória mais extensa das histórias em quadrinhos argentinos, uma vez que sua influência seminal se estende a todos os artistas que vieram desde então e não apenas das artes gráficas. Com absoluta razão, ele é considerado informalmente como um dos pais do quadrinho argentino moderno.
Uma matéria completa do Blog da Boitempo (“Os últimos passos de Héctor Oesterheld”: https://blogdaboitempo.com.br/2015/10/23/os-ultimos-passos-de-hector-oesterheld/) resgata aqueles que seriam os derradeiros instantes do artista argentino, antes de se tornar uma lamentável estatística e mais uma das 30 mil vítimas (estimativa) do bárbaro regime de exceção que dominou o país, até a abertura democrática e o julgamento dos culpados em 1985.

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