Para muito além de todos os prognósticos de vencedores e perdedores, da festa da paixão que invade os lares e as ruas do mundo, a atual edição da Copa do Mundo de 2026 já apresenta um aspecto que a diferencia de todas as outras, desde a primeira, naquele longínquo ano de 1930. E não falo do que acontece em campo. Nunca antes o torcedor anônimo de futebol foi assombrado por um lobby que promete tudo (ascensão social, diversão, emoção…) e entrega o exato oposto (vício em apostas, comprometimento das finanças familiares, depressão e…, sim, suicídio).
As bets parecem estar em todos os cantos e ao acesso de todos nós, cuja sedução é particularmente mais devastadora para os jovens de baixa renda que buscam enriquecimento rápido e são presas fáceis de um negócio extremamente lucrativo que tem sobretudo o crime organizado como artífice.
Segundo especialistas, as casas de apostas on-line exercem uma influência ambígua na política da Fifa. Elas são grandes patrocinadoras comerciais da maior entidade do futebol mundial, mas alvo de regulamentações estritas para evitar conflitos de interesse. Essa dinâmica reflete um esforço constante da entidade em equilibrar o lucro financeiro com a integridade esportiva (pelo menos, esse é o posicionamento oficial da Fifa), o que nem sempre parece ser possível de ser aferido na prática.

Foto: Getty Images
Dependência comercial das bets e lobby predatório de patrocínios
Há alguns anos, as bets têm empregado recursos para um apoio maciço a torneios globais. A Fifa firmou acordos milionários com empresas do setor. Por exemplo, a marca Betano tornou-se apoiadora oficial da Copa do Mundo Fifa para a Europa e a América do Sul. Ao aceitar esses patrocínios de forma institucional, a política da Fifa reconhece a legalidade e o forte apelo econômico do mercado de apostas, integrando-o oficialmente aos seus maiores eventos.
Blindagem à arbitragem e proibição de marcas
No âmbito das regras organizacionais, a Fifa adota uma postura rígida. A entidade proibiu terminantemente a exibição de logotipos de bets nos uniformes da equipe de arbitragem, bem como nas salas e cabines do VAR em competições oficiais. A política por trás dessa medida é proteger a imagem e a credibilidade dos árbitros, afastando qualquer suspeita pública ou potencial conflito de interesses nas decisões dos jogos.
Combate à manipulação de resultados e Código de Ética
A política interna do Estatuto e do Código de Ética da Fifa veda completamente que jogadores, árbitros, dirigentes e agentes participem de apostas ou tenham qualquer vínculo societário com empresas do ramo. Para isso, a Fifa tem políticas ativas de combate à manipulação, trabalhando com sistemas de alerta de integridade para monitorar transações suspeitas e preservar a essência competitiva do esporte.
Garotos-propaganda de luxo
Outro aspecto ainda mais controverso envolve a participação não apenas de podcasters e influenciadores digitais na propaganda de bets, mas também de grandes ídolos do futebol, que são patrocinados por essas marcas. A questão envolve um aspecto ético impossível de ser mitigado pela justificativa de que “faz parte do negócio”, cujo contexto muito se assemelha aos casos de anos passados e ainda atuais que envolvem o lobby das indústrias tabagistas e das cervejarias. Será que esses ídolos do futebol de crianças e jovens, enquanto figuras públicas, pensam na sua responsabilidade em relação aos resultados devastadores do produto que anunciam?

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