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Crise no Equador

Fuga do narcotraficante Fito inicia escalada de violência no país

Nesta terça-feira (09/01), o presidente do Equador, Daniel Noboa, decretou estado de exceção e de conflito armado interno no país, após diversos atos de violência se espalharem em reação à fuga do narcotraficante José Adolfo Macías da prisão de segurança máxima de La Roca, em Guayaquil, na segunda-feira (08/01). Apelidado de Fito, Macías é o fundador e líder da facção criminosa Los Choneros, considerado um dos piores cartéis de drogas equatorianos, responsável por centenas de mortes em décadas de atuação.

Após ataques, o exército reforça a segurança do Palácio de Carondelet, sede do governo equatoriano (foto: Rodrigo Buendia/AFP)

Após a evasão de Fito da penitenciária, diversas cidades do país registraram arrombamentos de residências, explosões nas ruas e, inclusive, sequestros. Até mesmo uma emissora de TV foi invadida ao vivo, durante uma transmissão. Em decorrência dos ataques, o governo federal equatoriano instituiu o toque de recolher, restringiu direitos de reunião e de privacidade de domicílio e suspendeu as aulas em escolas e universidades, assim como atendimentos hospitalares e em centros de saúde públicos de vários municípios. Até o fechamento desta matéria, registra-se o número de mortes de 11 pessoas em Guayaquil e de duas na cidade de Nobol. Na tentativa de coibir as ações criminosas, o exército e as forças de segurança pública equatorianas detiveram aproximadamente 70 pessoas.

Exército equatoriano vigia o entorno do Palácio de Carondelet, em Quito (foto: Rodrigo Buendia/AFP)

Antecedentes do caos

Analistas têm avaliado que a difícil conjuntura equatoriana vem se agravando há mais de 10 anos, em parte devido ao acirramento das políticas neoliberais, que têm ocasionado crescentes percentuais de assimetrias sociais e baixos níveis de IDH, oferecendo as condições estruturais ideais para o recrudescimento do crime organizado, a partir do aliciamento de crianças e adolescentes pelo narcotráfico, em revolta contra a desigualdade, a corrupção e a pobreza.

Jovens são detidos pelo exército (foto: Getty Images)

O crescimento do narcotráfico, herdado de uma conjuntura internacional, também constitui um fator de agravamento do contexto político, econômico e social no Equador, que durante a última década tornou-se uma rota mais segura para os cartéis estrangeiros, que escolheram justamente o país como uma forma de driblar as rotas por mar que partiam da Colômbia e as trilhas por terra que vinham do México, sempre mais onerosas e mais vigiadas.

Localizado estrategicamente entre o Peru e a Colômbia, que são os maiores produtores mundiais de cocaína, em questão de poucos anos, o Porto de Guayaquil tornou-se refém do narcotráfico, tornando-se o mais vital distribuidor de entorpecentes para os mercados norte-americanos e europeus. O mesmo ocorreu com as províncias portuárias de Esmeraldas e Los Rios.

Porto de Guayaquil: domínio do narcotráfico (foto: La Hora)

Com uma economia pouco heterogênea, agravada por baixa oferta profissional e pelo desemprego, o Equador tem hoje 27% de sua população abaixo da linha de pobreza, só à frente do Haiti e da Argentina em toda a América Latina. A dolarização da economia, instituída desde o ano 2000, também favoreceu a lavagem de dinheiro, os esquemas de securitização e as atividades criminosas do narcotráfico, que encontrou facilidades para a entrada e a saída de divisas do país.

Outros fatores, como um terremoto (2016) e a sindemia de Covid-19 (2020), serviram para comprometer uma estrutura social que já estava colapsada, sobretudo também pelo crescimento do tecido tumoral da corrupção estatal, que inclusive se disseminou com gravidade até pelo Poder Judiciário equatoriano, segundo cientistas políticos.

Uma população jovem, empobrecida e sem perspectivas de futuro fica à mercê do aliciamento dos narcotraficantes, que são financiados por grandes cartéis mexicanos e colombianos e, para se legitimar, se infiltraram nas instituições estatais corrompidas. Com isso, os índices de crimes atingiram patamares nunca antes vistos. Apenas de 2016 a 2022, os números de mortes violentas por 100 mil habitantes no país partiram de 6 para 26, sendo que, nos presídios, os índices são ainda mais assustadores: 32 para 323, apenas de 2019 a 2021.

Uma juventude empobrecida e sem perspectivas de futuro é cooptada pelo narcotráfico (foto: Fernando Machado/AFP)

Sinal vermelho

Outro fator que explica a escalada da violência pode ser resumido na flexibilização e na liberação do porte de armas, a partir de uma iniciativa do ex-presidente Guilherme Lasso, que tentava reverter sua queda de popularidade.

Um sinal vermelho que indicou como se propagava a gênese de um Estado paralelo no Equador foi o assassinato do então candidato à presidência Fernando Villavicencio (1963-2023), alvejado por três tiros na cabeça quando deixava um comício em um colégio de Quito, em 9 de agosto do ano passado.

Jornalista que se notabilizou por suas acerbas denúncias contra a corrupção que corrói altos escalões da política equatoriana, Villavicencio pagou com a vida sua atuação contra o narcotráfico.

No local do assassinato de Villavicencio, participantes do comício ajudam mulher também atingida pelos tiros (foto: AFP)

 

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