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Indignação popular não é fake news

Se governo quer conter desinformação sobre tragédia no RS, deve participar do debate público em vez de usar seu poder de polícia para perseguir cidadãos

Lygia Maria

Na tragédia, a máscara da civilização cai. O ser humano pode beirar o comportamento animalesco, como José Saramago tão bem descreveu no livro “Ensaio sobre a Cegueira”.

No alagado Rio Grande do Sul, meninas sofrem abuso sexual em abrigos, casas abandonadas são roubadas, golpes simulam arrecadação de dinheiro para desabrigados.

Nas redes sociais, grassa uma politização rasteira, até desumana, da catástrofe — como dizer que gaúchos, por votarem num governador neoliberal, mereceriam a enchente.

Nessa balbúrdia informacional, comum em situações calamitosas, também há boatos, propaganda, descontextualização, dados incompletos e, claro, indignação popular.

Mas o governo federal não só resolveu criar um gabinete para combater o que diz ser fake news, como acionou a Polícia Federal para investigar o que o povo anda falando.

No ofício, listam-se postagens que abalariam a credibilidade do Estado. O problema é que instituições não têm honra para serem atacadas. Isso é invencionice da famigerada Lei de Segurança Nacional, que tem sido usada para censura pelo Judiciário.

Pior: há postagens que são apenas revolta da população pela incompetência do poder público ou elogios a ações de civis, que têm atuado no resgate de vítimas e na logística de apoio aos desabrigados.

Rio Grande do Sul: devastação pelas enchentes, minimização da força do voluntariado em apoio às vítimas e desgoverno do governo Lula (foto: Ricardo Stuckert/PR)

Tentar controlar a crítica da sociedade aos governantes ou a instituições como as Forças Armadas em momentos de calamidade pública é típico de ditaduras — vide China, quando estourou a epidemia de Covid-19, e URSS durante o desastre na usina nuclear de Tchernóbil.

A eficiência de regimes democráticos vem justamente da liberdade para apontar erros de autoridades e cobrar melhorias. É natural, principalmente em situações catastróficas, que tudo isso venha misturado com desinformação. Portanto, o Estado brasileiro precisa conter seus laivos totalitários e, se quiser impedir falácias, deve participar do debate público, em vez de usar seu poder de polícia para perseguir cidadãos.

Lygia Maria é mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina e doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Este artigo foi publicado originalmente na Folha de S. Paulo em 12/05/2024.

 

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