Com um discurso ultraliberal de quem, desde a campanha, promete não deixar pedra sobre pedra do atual sistema político em seu país, ele é o primeiro economista a assumir a Casa Rosada e credita à violência sofrida na própria família o combustível que o impulsiona a não temer nada. Mas o que dizem os analistas sobre ele?
A investidura de Javier Milei à Presidência da Argentina hoje (10/12) marca um ponto de inflexão na história política do país em décadas. Pelo menos, é o que os seus eleitores esperam, após anos de desgovernos e persistente crise, que condenaram uma boa parte da população argentina à pobreza.
Milei foi içado à condição de “salvador da pátria” com uma verve ferina e opiniões polêmicas e após uma parelha disputa com o candidato peronista Sergio Massa, que, por sua vez, foi perdendo terreno após um primeiro turno vitorioso e viu seu oponente crescer, angariando a fidelidade das massas, desesperançosas em relação ao atual sistema político argentino.

Milei: desafios reais, muito além da retórica (foto: SOPA Images Limited/Alamy Live News Stock Photo)
“Milei soube se conectar [ao povo] a partir do exótico, com o cansaço de uma sociedade argentina, que prefere mandar tudo às favas a continuar vivendo como agora”, diagnosticou Juan Negri, titular da cátedra de Ciência Política e Governo da Universidade Torcuato Di Tella, de Buenos Aires.
Ainda em setembro, a perda de confiança no peronismo e na coalizão Frente de Todos nas primárias argentinas já dava aos governistas de Alberto Fernández mostras do grau de insatisfação popular com a classe dirigente. Não por acaso, foi a primeira vez em que os candidatos do peronismo, em quase todo o país, amargaram inédita derrota nas urnas por mais de 10 pontos de diferença.
Com a vitória no segundo turno, Milei torna-se o primeiro economista a chefiar o país, que precisará utilizar-se de toda a sua formação acadêmica, de uma coalizão coesa e de muita coragem para debelar uma crise que nem as mais promissoras soluções surtiram efeito. A Argentina, que até os anos de 1970 era conhecida como a Suíça da América Latina ou um pedaço da Europa encravado na América do Sul, há muitos anos amarga uma inflação anual superior a 100%, com 40% de sua população situada abaixo da linha da pobreza.

Protesto de argentina contra a crise: “Basta de esvaziar a cesta básica!” (foto: Anadolu Agency/Getty Images)
Com propostas polêmicas e ousadas, denominadas pelo próprio Milei como “libertárias” e “anarcocapitalistas”, ele prometeu, durante a campanha, dolarizar a economia com uma “competição livre de moedas”, eliminar a figura do Banco Central argentino e realizar uma severa diminuição da máquina estatal, mediante a supressão de ministérios e obras de infraestrutura, além da privatização de órgãos públicos.
Anarcocapitalista extremista
Segundo analistas, Milei é considerado um extremista de mercado que corteja valores conservadores, cujo discurso favorável ao Estado mínimo é tido como um dos muitos pilares do liberalismo. Embora Milei comumente se orgulhe de não ser carreirista ou originário do sistema político que ele abomina, ele rapidamente se adaptou às regras, tanto que foi eleito deputado federal e agora guindado ao posto de titular da nação justamente pela máquina de cujas engrenagens ele diz se diferenciar. Originário de uma família de classe média do bairro de Villa Devoto, em Buenos Aires, Milei teve um pai abusivo e violento, cujos maus-tratos físicos e psicológicos, ao invés de lhe traumatizarem, lhe tornaram destemido.

Milei discursa para correligionários depois do resultado das urnas (foto: Agustin Marcarian/Reuters)
Sua retórica de arauto do anarcocapitalismo – corrente política que preconiza a minimização do papel do Estado na economia – fala mais sobre a sua formação recente, porque Milei teve um início acadêmico como economista matemático, com viés neoclássico tradicional, durante os seus primeiros anos de aluno de Economia na Universidade de Belgrano e nos mestrados que cursou na Universidade Torcuato Di Tella e no Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social.
O ineditismo do movimento libertário na Argentina
Data de 2014 a adesão de Milei à Escola Austríaca e aos estudos do libertário Murray Rothbard, um economista norte-americano que ficou famoso por aliar as ideias libertárias à extrema direita, depois que concebeu e deu forma ao chamado “paleolibertarismo”. Em síntese, os libertários são partidários de uma escola política que preconiza a liberdade individual como um fundamento nuclear, opondo-se essencialmente contra a autoridade estatal e sua influência e intromissão na vida do indivíduo.
“Milei adota ideias de um libertarianismo de extrema direita e tenta aplicá-las na Argentina, algo sem precedentes neste país”, analisa Pablo Stefanoni, aluno de Milei no curso de Microeconomia na Universidade de Buenos Aires e um estudioso do advento do movimento libertário na Argentina.
Já o economista Juan Carlos de Pablo acha que tais correntes de pensamento possuem nuances favoráveis e outras sofríveis, como a firme e até obsessiva convicção de que o mercado não é passível de falhas. Pablo avalia que Milei se abraçou a tais ideias “de forma extrema, mais como um catecismo do que como um pensamento”.

Em um protesto popular, os argentinos criticam que ficaram reféns do FMI (foto: Eitan Abramovich/AFP/Getty Images)
Como exemplo, há o famoso caso protagonizado por Milei no canal TN, em rede nacional na Argentina, quando ele justificou o voto contrário de seu partido a uma legislação que estava sendo proposta a fim de ampliar um programa de combate a doenças cardíacas congênitas, que – segundo estudos – constitui um dos mais relatados motivos de óbitos de neonatos.
Em defesa do posicionamento refratário do próprio partido, Milei declarou que “isso [o programa] implica mais intervenção do Estado na vida dos indivíduos e mais gastos. Isso não funciona assim. Nós votamos com base nos princípios liberais”.
Risco de não sair do personagem
De acordo com uma leitura de Juan Carlos de Pablo, “Milei criou um personagem para a televisão. Muitas vezes, eu disse a ele para ter cuidado, para não enlouquecer de tanto se fazer de louco. Não é a primeira vez que o personagem devora a pessoa”, sentenciou. Para Pablo, algumas posturas polêmicas de Milei vão no mesmo sentido, como a defesa do porte de armas e da venda de órgãos.
“Por meses, me chamaram de louco por propor um caminho diferente para o nosso país. Loucura é continuar fazendo a mesma coisa e esperar resultados diferentes”, defendeu-se Milei, certa vez, em um discurso de campanha.
As propostas polêmicas, radicais, complexas e, às vezes, contraditórias de Milei são criticadas por seus detratores com o argumento de que elas sempre são uma coisa no discurso e outra bem diferente na prática. Eles sustentam que se Milei não sair logo do personagem, ele pode perder o rumo diante dos ingentes desafios que ele tem à frente, como a salvação dos empregos públicos e a manutenção dos programas de assistência social, por exemplo, além da reversão da implacável derrocada econômica e social que os assola.

Analistas alertam para a ameaça possível de que Milei possa ser “engolido” pelo personagem que ele próprio forjou (foto: EFE)

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