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Reflexos da polarização política mundial

O atentado contra Donald Trump é mais uma comprovação de como os extremismos de viés político têm se exacerbado não só no Brasil, mas também em todo o mundo, como resposta à falta de soluções políticas e sociais inclusivas para problemas urgentes que afetam a esmagadora maioria da população em âmbito mundial

Os disparos do rifle de Thomas Matthew Crooks (20) contra o pré-candidato à Casa Branca e ex-presidente Donald Trump no último sábado (13/07), em Butler, na Pensilvânia (EUA), durante um comício para partidários republicanos, propiciaram mais do que assombro, mensagens de repúdio de líderes mundiais e novas análises sobre as eleições presidenciais americanas de 5 de novembro. O caso escancara, de forma cabal e modelar, que a polarização política é hoje uma das maiores ameaças à paz mundial.

O atentado a Trump evidencia a sangrenta face da polarização política (foto: Evan Vucci/AP)

Todavia, suas causas são complexas e não têm uma única resposta, nem mesmo solução fácil e factível, se levarmos em conta os alicerces sobre os quais se sustenta nossa civilização. A dificuldade de respostas é evidente e pode ser exemplificada até mesmo no fato de que as propostas soluções para a resolução dos problemas mundiais não conseguem extrair da equação a polarização política para a sua elucidação.

Pior: segundo o cientista político Arie Perliger, da Universidade de Massachusetts Lowell, a polarização política nos Estados Unidos e no mundo está tão extremada que, de acordo com sua análise, a morte de Donald Trump no atentado do último sábado poderia ter como consequência desastrosa até mesmo uma guerra civil em solo americano.

O equilíbrio político americano esteve a um centímetro de pender para um cenário de possível guerra civil, afirmou Arie Perliger (foto: Gene J. Puskar/AP)

A paz por um centímetro

“A primeira coisa que me ocorreu é que estivemos basicamente a um centímetro de uma possível guerra civil. Eu acho que se, de fato, Donald Trump tivesse sofrido ferimentos fatais, o nível de violência que testemunhamos até agora não seria nada, comparado com o que veríamos nos próximos meses. Isso teria desencadeado um novo nível de raiva, frustração, ressentimento e hostilidade que não vemos há muitos e muitos anos nos Estados Unidos”, afirmou o cientista político para Naomi Schalit, editora do site The Conversation.

“A tentativa de assassinato, pelo menos nesse estágio inicial, pode validar um sentimento forte entre muitos apoiadores de Trump […] de que eles estão sendo deslegitimados, de que estão na defensiva e de que há esforços para basicamente impedi-los de competir no processo político e evitar que Trump retorne à Casa Branca”, destacou Arie Perliger. Em seguida, ainda em relação à forte polarização política nos EUA, ele completou que “não surpreende que as pessoas recorram à violência”.

A imprensa brasileira se deixou contaminar pela falta de isenção jornalística e noticiou o atentado inicialmente como suposta queda do palco e pretensos sons de tiros (foto: Anna Moneymaker/Getty Images)

Em uma postagem em seu perfil na rede Truth Social, Trump confirmou que foi “atingido por uma bala, que perfurou a parte superior da minha orelha direita”. Mais à frente, o pré-candidato republicano registrou que “soube imediatamente que algo estava errado, pois ouvi um zumbido, tiros e senti a bala rasgar a pele”.

Encoberto pelos agentes do serviço secreto, que imediatamente acorreram ao palco, logo que ouviram os disparos, Trump ouviu deles que Thomas Matthew Crooks havia sido abatido por snipers. O ex-presidente trazia sangue no lado direito do rosto e, antes de ser levado para fora do comício pelos seguranças, mesmo surpreso pelos eventos, ainda teve tempo de erguer o punho e articular para a multidão: “lutem”, enquanto era respondido pelos apoiadores com gritos de “USA”.

O serviço secreto americano foi acusado, no mínimo, de omissão na tentativa de evitar o atentado (foto: Gene J. Puskar/AP)

 Questionamento sobre a veracidade do atentado

Contudo, aqui, em âmbito nacional, uma constatação inacreditável e surpreendente disputou a atenção do público sobre o fato ocorrido em terras americanas: o fisiologismo militante da cobertura da tradicional imprensa brasileira sobre o atentado na Pensilvânia.

Em análise que repercutiu na imprensa brasileira independente, dentre tantas manchetes de grandes veículos que questionavam a veracidade do fato, com expressões como “suposto atentado”, o caso mais notável foi protagonizado pelo “especialista em estratégia política” (ou militante?) Amauri Chamorro e pelo sério analista político americano e editor-chefe da Americas Quarterly, Brian Winter.

Em programa da GloboNews, veiculado hoje (15/07), ao traçar um paralelo entre o atentado sofrido por Bolsonaro em 2018 e o experimentado por Trump agora em 2024, Chamorro disse que o então presidente brasileiro foi “favorecido [politicamente pela sua ausência nos debates presidenciais] pelo ‘suposto’ atentado que ele sofreu”. Em seguida, ele definiu que o ataque contra Trump serviu como “o teatro perfeito” para a corrida eleitoral deste ano nos Estados Unidos.

Na absurda acusação de “teatro político perfeito”, a imprensa brasileira se esqueceu de mencionar que um partidário perdeu a vida e outros dois ficaram gravemente feridos (foto: Rebecca Droke/AFP via Getty Images)

Ao ouvir tamanha e inaceitável sandice, vinda de qualquer indivíduo, de qualquer matiz político, alçado à condição de comentarista, principalmente se considerarmos que o ataque vitimou ainda um pai de família (o bombeiro Corey Comperatore, de 50 anos) e deixou outros dois partidários gravemente feridos, Winter pediu o uso da palavra e fez uma declaração ponderada, alheia a partidarismos, ainda que claramente chocado com o que ouvira.

“Acho irresponsável falar desse atentado hoje como se fosse uma armação. Não acho digno de um veículo de qualidade [sic] como a GloboNews. É quase impossível pensar nisso. Por favor, não vou nem entrar nisso. Me surpreende ouvir isso num veículo como a GloboNews […], por favor. […] Não é o dia para fazer esse tipo de especulação ridícula”.

No “teatro político”, considerado pela imprensa brasileira tradicional, faltou mencionar a presença do “vilão da peça”, o jovem perturbado Thomas Matthew Crooks, que foi abatido pelas forças de segurança no comício (foto: NY Post)

Isenção prejudicada pela ideologia

Igualmente sensato, com uma postura que se espera de um estadista, ainda que esteja do outro lado do espectro político e seja adversário à Casa Branca, o atual presidente americano Joe Biden, ao saber do atentado a Trump, fez um pronunciamento oficial, no qual afirmou que as emoções políticas podem estar exaltadas, mas que “as visões concorrentes da campanha devem ser sempre resolvidas pacificamente e não com atos de violência”. Disse ele, ainda, que “o poder de mudar a América deve estar sempre nas mãos do povo, não nas mãos de um aspirante a assassino”.

Thomas Matthew Crooks, de jovem promissor, premiado academicamente, a relegado ao rodapé da história (foto: arquivo familiar)

Há muito que a velha mídia brasileira oferece fartas doses de provas de que atua como assessoria de imprensa do governo Lula, tendo alijado a utópica isenção jornalística aos cursos universitários de comunicação. A mais recente evidência que atesta tão lamentável constatação foi o noticiário brasileiro do atentado a Trump feito pela velha imprensa, cujo ápice do absurdo foi a afirmação de Chamorro à GloboNews. Para quem se sentia em situação privilegiada para vociferar contra o “gabinete do ódio” do governo anterior, o discurso de Chamorro se alinha perfeitamente em conteúdo à falta de empatia que ele criticava.

A militância nas redações da ultrapassada imprensa hoje tem revelado todo um vasto teatro de fantoches de comentaristas políticos que não conseguem sustentar um mínimo e racional debate infenso ao partidarismo e ao matiz extremista, sem conseguir ocultar seus pendores políticos e negando-se a reconhecer que vivemos um regime de estímulo à censura estatal institucionalizada, como bem comprova a tramitação do malfadado PL das Fake News, que foi derrotado no Congresso Nacional.

Brian Winter: “Acho irresponsável falar desse atentado hoje como se fosse uma armação” (foto: Americas Quarterly)

O episódio protagonizado por Chamorro evidencia como hoje a imprensa tradicional tem seguido a regra de falsificar a realidade para caber no argumento político enviesado. E mais: mostra também como não se deve agir profissionalmente e sem a imprescindível ética jornalística. Eis que se expõe, sem rubor e sem arrependimento, o nível de profissional que (de)forma a opinião pública. Afinal, não há polarização que explique e justifique negar fatos com base em militância política.

Com informações de The New York Post, The New York Times, Info Money, The Conversation e Euro News.

One Comment

  • MARCOS CLEMENTE BEZERRA LIMA disse:

    Indignado e estarrecido com o atentado com o Trump e o atentado contra a informação da #GloboLixo.

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