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Resgate histórico de Robson Graia, um ícone do teatro brasiliense

Tradicional palco da cultura na Capital Federal recebe exposição e lançamento de obra literária em homenagem ao dramaturgo, que nos deixou há 23 anos

Marcela Coelho

No dia 1º de junho, às 19h, o Espaço Cultural Renato Russo será palco de diversas homenagens ao artista, diretor e dramaturgo Robson Graia. O evento marca o lançamento do livro e da exposição “Conte-me tudo, não me esconda nada! Ou RG – A identidade de Robson Graia: seus atores e atrizes”. Trata-se de uma profunda pesquisa, construída ao longo de 11 anos, que conta a história do ilustre diretor teatral. Uma memória cuidadosamente registrada pelo olhar do ator e escritor Marcelo Pelucio, que reúne depoimentos de nomes relevantes da cena teatral do DF, como Murilo Grossi, Miquéias Paz, Cristiane Sobral, Luciana Martuchelli, Edson Duavy, James Fensterseifer, André Deca, Marcus Amaral (Marcus Santos), entre outros.

Robson Graia e elenco. Foto: Randal Andrade

Dono de um legado cultural inquestionável, Robson Graia foi responsável pela formação teatral de grandes artistas. Um homem negro, que se destacou como ator, diretor, dramaturgo, produtor, apresentador e atleta, participando ativamente da luta contra o racismo e por políticas públicas para a área cultural. Conduziu, ao longo de 16 anos, a “Palco Cia. de Teatro”, conhecida atualmente por instituto Palco Comparsaria Primeira de Talentos. Nos anos de 1980, realizou esquetes e apresentações, com suas famosas palco-novelas, no antigo e tradicional Jogo de Cena, que marcou a história cultural da cidade.

Era um momento no qual artistas, atores, atrizes e outros profissionais do teatro, do cinema e da literatura vivenciaram esse vulcão criativo artístico-cultural. A obra atrai os olhos de artistas e espectadores que fizeram parte da história de Robson, bem como das novas gerações, conquistando, entre os diversos públicos, uma crítica positiva, emocionante, afetuosa e respeitável à memória de Graia. O lançamento do livro ocorre em três etapas. A primeira, em parceria com o Jogo de Cena, aconteceu neste mês de maio. A próxima etapa será no Espaço Cultural Renato Russo, no dia 1º de junho, às 19h, local onde o jovem Graia atuou como professor. Em mais um reconhecimento de sua importância, o Teatro de Bolso leva o seu nome.

Paulo Castro

Robson Graia em cena. Foto: Randal Andrade

Para a exposição foram selecionados textos, fotos, objetos, músicas e quadros que remetem à sua trajetória. Na programação, além do lançamento do livro e da exposição, está previsto um momento solene ao ator, além de apresentações artísticas com discotecagem do coletivo Batidão Sonoro e exibição de documentários.

Marcelo Pelucio, autor do livro e da exposição

A última etapa do lançamento do livro e da exposição será no dia 19 de agosto, no instituto Palco Comparsaria Primeira de Talentos, no Varjão, local onde a história e os sonhos de Robson Graia estão preservados por meio de ações educacionais, ambientais, sociais, culturais e esportivas.

O livro e a exposição contam com a realização do instituto, com produção da Central 61 e apoio do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) e da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal, além do Espaço Cultural Renato Russo e do Instituto Janelas.

Entrevista com o autor, Marcelo Pelucio

1. Quem foi Robson Graia?

Para mim, Robson Graia não foi. Ele é e está em todo o meu processo de formação de conhecimento sobre atuação. Foi um dos grandes pilares. Graia é uma entidade, um ser que conseguia reunir várias qualidades e competências numa única pessoa: nesse ser incansável, criativo, revolucionário e irreverente. Como disse Luciane Franco, ele arrancava sua estrela do peito e colocava na sua testa, para você saber que seus sonhos, seus destinos, seus projetos, o que você quisesse ser, eram para ser mostrados ao mundo, lhe desafiando a ser quem você realmente é! Ele lhe dava a mão e ajudava você a construir esse caminho. Graia lutou muito em todas as áreas das artes e na política e contra o racismo. Era um guerreiro, que partiu muito cedo, deixando um legado gigante de aprendizados para os seus seguidores, admiradores e aqueles que, porventura, não o conheçam, mas desejam entender um pouco da história do teatro no Distrito Federal.

2. Como foi o processo de escrita do livro?

Em setembro de 2012, eu estava em Salvador, Bahia, no meio de um caos particular. Depois de quase 15 anos fora de Brasília, era hora de retornar. Quando saí de Brasília, em 1998, saí em busca de teatro, do meu trabalho como ator, fortemente influenciado pelo Robson Graia. Como retornar a Brasília sem o Graia? Eu soube muito, muito depois da partida dele. E isso ficou na minha cabeça: “vou chegar a Brasília e não há mais o Robson Graia”. Foi aí que me deu um estalo. Primeiro, pensei que escrever sobre ele seria a forma que eu teria de dizer que estive com ele, que conheço ele, que foi incrível trabalhar com ele. Sim, de fato, foi uma iniciativa um tanto egoísta, em uma perspectiva de dizer para as pessoas que eu tinha uma formação, que eu fazia parte do teatro e estava voltando, porque eu entendia o Graia como um grande mestre. Depois, comecei a contar isso para as pessoas que também fizeram parte do grupo na época em que eu estava lá. Eu mesmo precisava me certificar de que, de fato, aquilo tinha acontecido. A memória não é tão sólida como imaginamos e, em certos momentos, eu achava que estava até inventando o que vinha das lembranças. E as pessoas começaram a dar seus relatos e a confirmar o que eu tinha de memória. Foi a partir daí que finquei o pé no livro e não saí mais até este ano. Foram 11 anos escrevendo e pesquisando. E acho que ainda faltam páginas para falar desse artista fenomenal!

O dramaturgo e o elenco durante ensaio da peça: “Os Ordinários” (1989). Foto: Ricardo Junqueira

3. Quais são suas fontes de inspiração de pesquisa?

Esse estalo de querer escrever se deu por esse viés da falta de memória, de não ter aquele lugar “meu” no teatro, que seria voltar a trabalhar com o Graia. Então, além das minhas memórias e do trabalho que realizei com ele desde 1992 até minha saída do grupo, a obra toda dele que fui conhecendo durante as pesquisas foi me mostrando o tamanho e a profundidade do Graia. Tudo isso foi me dando o gás para escrever e conversar com as pessoas e buscar com a dona Lúcia Souza, mãe do Graia, tudo o que eu pudesse ter para falar dele. E fui vendo que não era só um carinha que fazia peça de comédia, como muitas vezes ouvi nos idos dos anos de 1990. Era um gigante das artes! E, quando visitei o instituto Palco, em 2014, com a biblioteca Ilê de Ler sendo construída, com a dona Lúcia Souza à frente, me dei conta de que seu legado estava se materializando ali. E me deparar com a partida tão repentina de Graia e perceber que a cidade não fala dele, para mim, me faz pensar que o livro pode ser o alto-falante desse legado.

Pôster para divulgação da peça: “Os Farsantes Também Amam” (1988). Foto: James Fensterseifer

4. Você vê paralelos entre as suas vivências e as de Robson Graia? O que o Graia deixou de marcas?

Uma sólida formação de trabalho de teatro, na produção, na atuação. A coragem de seguir o sonho, a chama interna sempre acesa, a luta pela arte. Mas não consigo ver paralelos entre as minhas experiências e as do Graia. O Graia é um gigante, genial, um estrondo de criação em tudo o que ele fazia. Não parava! Era uma energia infindável! Produzia sem parar: era um articulador, ativista, preocupado com tudo e com todos.

5. Qual você acha ser o legado do seu novo livro?

O livro pode ser esse porta-voz da vida e da obra de Robson Graia. Quando alguém buscar a história do teatro em Brasília, o jeito de se fazer teatro nos anos de 1980 e 1990, a característica linha humorística, a influência de seus trabalhos no Jogo de Cena e vice-versa, vão poder encontrar isso nas páginas deste livro, com as vozes de muitos dos que o conheceram, trabalharam e viveram com Robson Graia.

Serviço

Evento: Lançamento do livro e exposição: “Conte-me tudo, não me esconda nada! Ou RG – A identidade de Robson Graia: seus atores e atrizes”, por Marcelo Pelucio
Local: Espaço Cultural Renato Russo, 508 Sul – Galeria Parangolé
Lançamento do livro e abertura da exposição: 1º de junho, às 19h
Período da exposição: de 1º de junho a 17 de julho
Classificação indicativa: livre

Programação gratuita

Obs.: no dia 19/08, a exposição e o lançamento do livro ocorrerão no instituto Palco Comparsaria Primeira de Talentos, no Varjão
Horário: a partir das 19h
Informações: (61) 98417-6112 / 98433-0740 (WhatsApp)

 

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